22 de novembro de 2011

Livre Agência

Por John L. Dagg

Que significa livre agência? Se dissermos que significa isenção de responsabilidade diante de algum poder superior, então não existe outro ser livre agente além de Deus. Contudo, não é esse o sentido em que a expressão "livre agência" é empregada tecnicamente, e segundo o qual ela denota uma agência voluntária - agência sem qualquer compulsão.

A criatura que age voluntariamente, reconhecendo a diferença entre o certo e o errado, está devidamente sujeita ao governo moral de Deus. O bom senso humano determina que uma pessoa nessas condições é responsável pelos seus atos. Não precisamos entrar em qualquer inquirição metafísica a sim de determinar por meio de quais processos mentais foi formada essa ou aquela volição; basta-nos saber que tal voliçao foi formada. Se um homem fizer aquilo que não tensionava fazer, naturalmente ele agiu involuntariamente; porém, quando fica comprovada a intenção de perpetrar uma ação qualquer, tendo o sujeito pleno conhecimento da criminalidade dessa ação, então nenhuma sutiliza metafísica será capaz de isentá-lo de culpa. Segundo o juízo humano comum, tal homem será considerado responsável pelo erro praticado.

Alguns pensadores têm afirmado que para responsabilizar um agente é mister quea vontade dele tenha a capacidade de autodeterminação. Esses pensadores asseveram ser necessário não somente que o agente atue voluntariamente, mas também que seja possuidor da capacidade de querer agir de modo contrário. Ora, que esse agente tenha a capacidade de agir contrariamente ao que fez fica implícito no seu ato voluntário, isto é, sem compulsão; assim atribuindo a ele a inteira responsabilidade pelas suas ações. Todavia, a capacidade de querer agir de modo diferente do que se faz é uma adição suplementar à voluntariedade que o bom senso humano não procura perscrutar; mas, na qualidade de uma perplexidade metafísica, tal questão requer nossa atenção.

Poder autodeterminador da vontade. É inconsistente com a precisão de pensamento filosófico falar da vontade como determinadora ou decisória. As faculdades da mente não são agentes distintos, de existência separada da própria mente. Podemos afirmar que uma pessoa compreende ou quer, bem como que sua mente compreende ou quer; mas para dizer que a sua compreenção compreende, ou que a sua vontade quer, implica uma filosofia confusa. Se concebermos que avontade determina a si mesma, assim como a agulha magnética determina sua posição, sem o concurso de qualquer raciocínio, sem qualquer direito de escolha, estaremos admitindo uma suposição que jamais poderá harmonizar-se com os pontos de vistas daqueles que defendem a tese de que a vontade tem a capacidade autodeterminante. Por outro lado, se concebermos que a determinação da vontade é por deliberação própria, ou por qualquer outro processo mental, então a vontade estará sendo representada como um agente distinto, dotado de uma mente inteiramente sua.

Poder da vontade. Essa expressão aponta para uma outra incongruência. Nos atos externos dos seres humanos, poder e vontade são aspectos concomitantes e necessários a um ato qualquer. Com a ausência de um desses aspectos não pode concretizar-se o ato. Porém, além do ato de se querer, o que se faz necessário além da vontade? Qual poder precisa ser conjugado à vontade? Quão errônea é a suposição de que a vontade tem vontade de exercer volição, mas não tem o poder! Contudo, algo similar a isso precisa ser concebido, se quisermos emprestar uma significação distinta e inteligente à expressão "poder autodeterminante da vontade".

DAGG, John L. Manual de Teologia. São Paulo: Fiel, p. 99-100, 1989.