15 de fevereiro de 2011

Sem Vergonha da Bíblia

Ontem li no Púlpito Cristão um artigo de autoria do irmão Avelar Jr. intitulado “O dia em que senti vergonha da Bíblia”, onde discorre sobre a dificuldade que muitos têm de compreender o significado das palavras da edição Revista e Corrigida da tradução de João Ferreira de Almeida, e dizendo que em certa ocasião sentiu, por causa disso, vergonha da Bíblia. Embora concorde que a edição de Almeida possui uma linguagem um tanto densa para o atual estágio educacional da maioria das pessoas, discordo que isto seja um problema da tradução, que podemos considerar arcaica.


Apesar do irmão Avelar se utilizar do texto de Atos 2.11, quero dizer que a linguagem utilizada nas versões de Almeida, é o nosso bom e velho português, e se ele é uma ilustre desconhecido da maioria dos brasileiros a culpa não é da Bíblia. Desculpem-me a expressão, mas creio que o “buraco é mais embaixo”, o problema não é a dificuldade vocabular da versão de Almeida, mas o nível educacional da maioria da população, diga-se de passagem, composta por analfabetos funcionais que mal sabem escrever o próprio nome e lêem textos simples aos trancos e barrancos. A linguagem usada por Almeida e já “atualizada” diversas vezes, em versões revisadas, revistas, corrigidas e etc. era na época de sua escrita a linguagem usada pela maior parte da população, de forma que palavras como “mancebo”, “varão”, “enxundia”, “ilhargas”, "ósculo", bem como o uso das 2ª pessoas do singular e plural e o vasto uso de mesóclises eram comuns na época.

O que temos que lutar é por melhores condições educacionais e não por uma simplificação que ao invés de elevar o nível cultural o reduz ao mesmo nível das tribos ameríndias do século XVI. Caso contrário, logo logo teremos a “Bíblia em Gíria”, que em pouco tempo terá de ser atualizada, onde Deus diz a Adão que ele “pisou na bola”, ou Moisés se referindo a José como “mó caô", ou que Davi “mandou ver” ou “botou pressão” em Bate-seba, ou ainda que Judas era o maior 171. Ou quem sabe não seria interessante uma Bíblia em “mineirês”, outra em “baianês” e outra em “caipirês”, afinal, na questão lingüística, existem diferenças regionais suficientes para respaldar esta idéia. Antes que alguma sociedade bíblica compre a idéia, quero dizer que estou sendo irônico, mas se comprar quero royalties.

Porque ao invés de reclamar das palavras arcaicas, não tentamos melhorar o vocabulário das pessoas que freqüentam nossas igrejas? A popularização da educação foi, sem sombra de duvida, um avanço conseguido pela reforma protestante, pois todos tinham o direito de ler as Escrituras, vamos despertar nas pessoas o desejo de aprender mais, não copiemos um mundo que produz versões condensadas e comentadas das obras de Machado de Assis porque os estudantes não conseguem compreender o português usado por ele.

Dizem que estamos ficando mais inteligentes, mas quando olho para trás e vejo o nível educacional de muitas pessoas do séculos passados, acho que o nosso nível caiu drasticamente. Podemos até possuir mais informações, um maior conhecimento, mas dizer que estamos mais inteligentes é burrice. Falta-nos prazer pela leitura de bons livros e principalmente da Bíblia, colocar a Escritura de lado apenas por não saber o significado de uma palavra é um atestado de preguiça e impenitência tremendo, pois para que é que existem dicionários? Não sinto vergonha da Bíblia, mas sinto muita vergonha do atual nível cultural e educacional do nosso povo.

Ednaldo.

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P.S. Este artigo não é uma critica ao artigo do irmão Avelar Jr., mas uma simples análise da situação considerando outro ponto de vista.

11 Comentário(s):

  1. Excelente artigo ED!Concordo plenamente.


    Infelizmente o nível educacional em língua portuguesa é pobre e caso queiramos combater isso, muitas vezes somos tachados de "soberbos intelectuais".

    Há certas passagens bíblicas que conseguríamos entender se conhecessemos mais nossa própria língua. Com isso não quero é claro, menosprezar o estudo importante das línguas originais.

    Forte abraço e Deus te abençoe!

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  2. A Paz do Senhor, Victor.

    É sempre um grande prazer receber seus comentários.

    Desculpe-me a falta dos meus no GQL, mas ando um tanto ocupado.

    Que Deus te abençoe.

    Ednaldo.

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  3. Parabéns pelo post, Irmão Ednaldo! Concordo inteiramente com o que você escreveu. Também li o referido artigo no blog "Púlpito Cristão" e, respeitosamente, discordo do autor. Sou professor da Escola Dominical e minha classe é constituída justamente de irmãos pouco alfabetizados ou mesmo analfabetos. Quanto surgem termos "difíceis" da versão de Almeida (a mais usada por eles), faço questão de explicar para os meus alunos o que aqueles significam. E também procuro incentivá-los a fazerem uso do dicionário sempre que se depararem com palavras desconhecidas: afinal, há muito tempo que esse livro deixou de ser acessível apenas aos cultos e abastados. Não é propriamente a sua missão, mas a igreja pode sim contribuir positivamente para a elevação do nível cultural e educacional de seus membros e congregados.

    Vanderson M. da Silva

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  4. Olá irmão Vanderson,

    É um prazer ter o Polemista Reformado aqui no meu blog, tenho sentido sua falta no fórum.

    Obrigado por seu comentário.

    Em Cristo,

    Ednaldo.

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  5. Ednaldo,

    Excelente e providencial texto, especialmente para a igreja atual que quer copiar cada vez mais as coisas do mundo, inclusive a ignorância dele.
    Atos 2.11 fala que os estrangeiros ouviam o Evangelho em suas próprias línguas e, ao que me conste, a ACF ou a ARA são escritas em português, ora! Logo, a qual língua o autor se refere, caso não seja brasileiro?
    O problema de se contextualizar a Escritura é que termos e conceitos acabam diluídos e perdem o sentido, por se aplicar uma interpretação que os deixem mais palatáveis aos ouvidos e olhos afeitos à indolência.
    Versões como a BLH, NTLH e congêneres são, ao meu ver, muito mais difíceis de se entender do que as tradicionais, exatamente por querer simplificar tanto o texto que ele perde o sentido e objetividade, tornando-se confuso e, em muitos trechos, incoerente.
    Quando aquele autor afirma que se envergonha da Bíblia, está transferindo para ela uma responsabilidade que é sua; e ao dar razão à ignorância do seu interlocutor ao invés de ensiná-lo [pois todos somos ignorantes em algum aspecto; e devemos ser ensinados por quem pode ensinar, e somos instados pela própria Escritura a aprender], ele escolheu o caminho mais fácil: a omissão; ao acusar a erudição e desejar erradicá-la, ao invés de se empenhar em erradicar a ignorância, através do seu labor professoral. Por isso Paulo diz que Deus deu dons aos membros dos Corpo, uns para evangelistas, e outros para para pastores e doutores [Ef 4.11]. Infelizmente, a idéia que se tem na igreja, hoje me dia, é de que todos podem ser tudo ao mesmo tempo, de tal forma que as mãos além da sua função estrita tem também de ouvir, falar e andar, mas como não consegue, deixa até mesmo de fazer o que lhe inerente, e acaba por não servir para nada.
    O que vejo, muito por aí, é preguiça mesmo, e um rol de desculpas esfarrapadas para deixar de fazer o que se tem de fazer. Se não está bom, torne-o bom, cumprindo a missão a que foi chamado.
    Ednaldo, desculpe-me o tamanho e o mau-jeito [rsrs]... mas cada vez mais me irrita essa mania que estamos absorvendo de justificar os nossos erros apontando-os na direção de outros, como se eles e não nós fossem os culpados.
    E acaba que é sempre mais fácil tentar lançar a "pecha" de imperfeição onde não há imperfeição, do que assumi-la. Por isso, estamos perdendo feio para o mundo... quando queremos nos rivalizar com ele, nos colocando no mesmo nível dele; quando estamos ou deveríamos estar numa posição superior, não por nós mesmos, mas por Aquele que nos resgatou de lá, do mundo.
    Grande abraço!
    Cristo o abençoe!

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  6. Paz Jorge,

    Acho que tamanho de comentário por tamanho de comentário estamos quites, [rsrs], então não há o que desculpar.

    Apesar do tom ironico que usei, não me surpreenderia daqui a alguns anos uma Sociedade Biblica criar uma Bíblia em gíria, quem sabe para substituir uma NTLH. Infelizmente ajudamos na proliferação da ignorância linguística agindo dessa forma.

    E quanto a clareza, acredite se quiser, mas uma das versões bíblicas mais claras que já li foi uma Tradução do Novo Mundo das Sagradas Escrituras, neste ponto os TJs dão, a meu ver, um show, a escolha das palavras da tradução brasileira é show de bola, mas infelizmente existem os já conhecidos problemas desta tradução, por isso jamais a indico para um neofito, mas se você tiver acesso a uma não deixe de ler.

    Fica na Paz,

    Ednaldo.

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  7. Ednaldo,

    Tomei conhecimento do seu artigo po da Sociedade Calvinista de que sou membro tb. Li o artigo do Avelar e confesso que fiquei desconfortável com o que li. Contudo não fui capaz de ter esta mesma percepção que você teve.
    De fato, estamos vivendo terríveis dias em que o evangelho tem sido esvaziado para atender as "exigências" de um povo que não quer crescer.
    O evangelho deve ser pregado de maneira que leve o indivíduo ao progresso espiritual e cultural.
    Jesus pregou de forma simples, mas não simplista.
    Se puder, me faça uma visita:
    www.eclesiareformanda.logspot.com
    Um abraço.
    Marcelo.

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  8. Paz Marcelo,

    Obrigado por sua visita e comentário, concordo com ele.

    já fiz uma visita ao seu blog e gostei da proposta.

    Abraços,

    Ednaldo.

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  9. Muito bom, parabens por abordar a questao. Nao sou contra traduçoes em linguagem mais facil, porem, querer ajudar as pessoas incentivando sua ignorancia, me parece o mal da nossa geraçao.

    Gostei muito.

    Paz e bem

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  10. Olá Marcelo, que bom tê-lo por aqui.

    Também não sou contra as novas versões, porém creio que o motivo da existência delas não deve ser, como dito por você, um incentivo a ignorância do leitor. Principalmente pela tendência das novas versões de induzir o leitor a uma determinada interpretação biblica, que nem sempre é ortodoxa,como é o caso das parafrases "Viva", seja a nova seja a velha, e "NTLH", idem. A NVI sofre bem menos desse problema, mas sofre, o que possivelmente em uma futura "atualização" levará a interpretações e não simplesmente traduções do texto bíblico.

    Deus o abençoe,

    Ednaldo.

    PS. Espero que sua esposa esteja bem de saúde.

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  11. Belo post, irmão Ednaldo. Como cristãos, com certeza devemos contribuir para o enriquecimento educacional e cultural de nosso povo. Afinal, a Bíblia existe na forma de um livro, que deve ser lido e interpretado corretamente. Ignorância e Cristianismo não combinam! Sim, é preciso que mais e mais brasileiros descubram o prazer da leitura! Graças a Deus, muitos já têm descoberto! Outrossim, somos privilegiados, no sentido em que temos à nossa disposição tantas e boas traduções da Palavra de Deus. Penso que a NVI acertou em cheio na escolha dos melhores manuscritos, e embora não concorde com alguns critérios utilizados para traduzir alguns trechos, de modo geral essa versão tem me agradado - não é simplória como a NTLH (que também considero uma paráfrase), e nem tão, digamos, "arcaica" como as Almeidas. Mas confesso que ainda sonho com uma tradução das Escrituras verdadeiramente contemporânea, e ao mesmo tempo confiável... enfim, como dizia um de meus professores no seminário: "A melhor tradução da Bíblia é a que você deve fazer..." Grande abraço, irmão Ednaldo, continue nos brindando com seus posts, espero não tê-lo cansado.

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